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Editora Solar dos Livros
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O trem para Mariposa não para em Mariposa

Autor: Davi Silva Gonçalves

Um lugar chamado Mariposa é uma obra canadense, escrita por um canadense, sobre uma cidadezinha no Canadá. Não sei o que Stephen Leacock teria escrito sobre o interior brasileiro. Nem sei se ele teria escrito um livro sequer, caso tivesse nascido no Brasil – talvez fosse barbeiro, como Jeff, ou dono de um boteco, como o Sr. Smith, quem sabe. Que personagem a gente seria se não estivéssemos sendo quem somos, onde somos e quando somos? Profundo. Em minha tradução desse romance, não hesito em ignorar se as palavras escolhidas pelo autor têm origem germânica ou românica ou o que quer que seja; não me preocupei, além disso, em investigar se as palavras que optei por utilizar em minha tradução têm a mesma raiz daquelas escolhidas por Leacock, ou se foram criadas antes ou depois do ano em que o livro foi escrito (de modo a evitar aqueles termos “que ainda não existiam”). Perdoem-me aqueles que, de alguma forma, se ofendem, mas, a meu ver, preocupações dessa dimensão beiram o ridículo, se assemelhando muito mais a um conto de Jorge Luis Borges do que a uma estratégia tradutória de validade prática. Transvestido de respeito pelo projeto original sobrevive ainda o mito da fidelidade ao texto único, intocável, soberano; e esse mito nos impede de perceber o principal: que o efeito é, e sempre será, muito (mas muito!) maior do que a palavra. Explico: o que define uma palavra não é a sua origem, sua etimologia, mas sim aquilo que ela efetivamente faz, o impacto que ela exerce em nós, aquilo que sentimos ao ler essa palavra, escutá-la ou mesmo imaginá-la. Isso sem falar no momento em que juntamos uma palavra com outra… aí sim o bicho pega. Letras, palavras, frases, parágrafos, páginas, capítulos, volumes… o texto que se traduz configura um universo muito maior do que o tangível e, neste submundo de significados, nenhuma escolha é uma só.

Pensemos, por exemplo, na palavra “ponte”. A metáfora da tradução como ponte é um clássico; e, como boa parte dos clássicos, não faz muito sentido. Pontes são estruturas utilizadas quando tentamos chegar de um lugar a outro e essa ideia emerge da ilusão de que, através da tradução, o leitor poderá caminhar na direção do texto original – ou o contrário, no caso de adaptações que se situam mais nos elementos particulares ao contexto de chegada: as chamadas traduções domesticadoras (em oposição às estrangeirizantes, que privilegiam o texto de partida). A tradução, nesse sentido, seria apenas a trajetória utilizada para esse encontro. Correto? Não! Na verdade verdadeira, a tradução é precisamente o lugar onde o encontro acontece. Nesse sentido, alguns críticos gostam de pensar num “meio termo”: isto é, uma tradução nem tão domesticadora nem tão estrangeirizante onde autor e leitor se encontrem “no meio da ponte”. Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno: um quid pro quo ou um quiproquó? Eu particularmente acho toda essa discussão um tanto quanto… inútil?! A arte como um todo não se trata apenas de um encontro, assim como não se trata apenas de um destino final. No caso da literatura, sempre que lemos qualquer romance, traduzido ou não, percorremos um caminho e, até que ele chegue ao fim, nos transformamos durante e por causa da jornada empreendida ao longo dos dias, semanas ou meses em que nossa leitura se estendeu: o sentido não está no ponto final, mas sim em todas as vírgulas que nos acompanharam da primeira até a última página. Se essa tradução em particular fosse uma ponte, caro leitor, eu saberia exatamente para onde ela iria levá-lo e, se quer saber, eu não faço a menor ideia!

O que posso dizer com certeza é que a cidade de Mariposa não é apenas um pano de fundo, nem para Leacock, nem para a narradora e nem para mim. Mariposa não é somente o lugar onde os personagens se encontram e “as coisas acontecem”. Nas histórias que se constroem nessa cidadezinha, nenhum personagem é mais ou menos importante: se existe um protagonismo, ele é exercido precisamente pelo espaço ocupado por eles – e que, em retorno, os ocupa de volta. Nossa protagonista é Mariposa, a cidade ensolarada: única personagem que aparece em todos os esquetes, do primeiro até o décimo segundo. Quanto às aventuras que lá acontecem, nos encontros e desencontros do enredo, elas são todas marcadas pelo anticlímax: ou seja, pelo efeito causado no leitor quando ele percebe que aquilo de tão grandioso que estava prestes a ocorrer nem é tão grandioso e, muitas vezes, nem mesmo ocorre. Sabe, o anticlímax: do tipo que o leitor sente quando se dá conta que o livro que está lendo é traduzido. Ainda isso! A narradora, por sua vez, falha miseravelmente em sua tentativa de imunizar os personagens da cidadezinha, bem como a cidadezinha em si, ao compará-los com os moradores das grandes metrópoles: da Cidade com “c” maiúsculo. Mariposa e seus habitantes são superestimados: eles não são perfeitos como a narradora gostaria que fossem e, nisso, nos lembram muito bem que a oposição entre campo e cidade não passa de uma ilusão, como bem pontuado por Raymond Williams.

Na continuação dessa história (o romance Arcadian Adventures with the Idle Rich, escrito por Leacock em 1914, que ainda pretendo traduzir), seu narrador reforça essa ideia de que a vida rural representa um movimento bucólico de retorno forçado a um espaço-tempo obsoleto por excelência, já com os dias contados. Isso acontece quando conhecemos um personagem que, na tentativa de se afastar da metrópole e recolocar a si mesmo em um passado campestre, costumava se sentar na praça e ler jornais de meses e até anos atrás. Parada no tempo, Mariposa quer e não quer se transformar, e não há melhor maneira de retroalimentar esse paradoxo do que através da tradução. Se, em tempos passados, a passagem do trilho de trem pela cidadezinha foi o mais próximo que Mariposa esteve de se tornar, em alguma medida, cosmopolita, por assim dizer, a tradução que acabo de publicar pela editora Solar dos Livros oportuniza aos esquetes de Leacock uma parada numa estação bastante ambiciosa, que atravessa hemisférios e mais de um século de distância. O trem que passa por Mariposa chega agora ao Brasil e eu espero que seus passageiros sejam bem recebidos por esse novo e inesperado público.

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