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Editora Solar dos Livros
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“Mariposa traicionera, todo se lo lleva el viento”

Autor: Davi Silva Gonçalves

No título deste texto trago o início do refrão da música “Mariposa Traicionera”, composição do grupo mexicano Maná. Nela, a mariposa serve como metáfora para se referir a uma mulher ligeira, que é levada com o vento, de um lado para o outro, aparecendo para logo desaparecer das vistas do eu lírico, que enlouquece com isso. Em minha tese de doutorado, publicada em 2017, também me utilizo desta canção, em certo momento, para fazer alusão aos desafios da tradução comentada da obra Sunshine sketches of a little town, escrita por Stephen Leacock em 1912. A “pequena cidade”, que a narradora descreve ao longo de doze capítulos, se chama Mariposa – nome que, em língua inglesa, nada tem a ver com o inseto. Essa alteração através da manutenção (já que a palavra é a mesma, mas, em português, é munida de outro significado) parece-me extremamente interessante, sendo a mariposa um símbolo da metamorfose e do renascimento, que é precisamente aquilo que define a tradução literária enquanto tal. Trata-se este do paradoxo em que embarquei: traduzi o nome da cidade sem mudar uma letra, modificando por completo o seu sentido. Pode isso, Arnaldo? Pode! A tradução, qualquer tradução, só se faz possível porque reinventa, transforma o que lhe serviu de fonte. Inexiste, nesse sentido, uma mesma mensagem dita em um outro idioma ou através de um outro meio semiótico; afinal de contas, uma só palavra carrega com ela não apenas o “seu” significado, sendo acompanhada também por muitos outros significados que a circundam, na corrente fluida e disforme da tessitura lexical por onde ela navega.

Do mesmo modo, as recorrentes críticas que são feitas às adaptações cinematográficas, por serem pouco ou nada “fiéis” aos romances que lhes serviram de inspiração, carecem de fundamento. Ora, se uma história que era livro agora virou filme ela instantaneamente já se transformou em uma outra história. Ou seja, em resumo, uma “mesma” mensagem, em um outro signo, se torna, inevitavelmente, uma nova mensagem. Se, para a tradução, hoje o termo “fidelidade” já é considerado obsoleto, o termo “equivalência” se equilibra com dificuldade numa frágil corda bamba e, basta um leve sopro da memória para que se perceba que não; os sentidos, que brotam dessa ou daquela escolha do tradutor na hora de traduzir isso ou aquilo, na verdade não são realmente tão perfeitamente equivalentes quanto pareciam ser num primeiro momento. Traduzir é reescrever. Reescrever é recriar.

Dito isso, e para fazer jus à tradição das confissões de tradutor, vou me defender: seria impossível pensar em termos de uma superfície absolutamente transparente para traduzir os esquetes ensolarados de Stephen Leacock. Em minha tradução inédita dos esquetes, intitulada Um lugar chamado Mariposa e que chega ao Brasil em 2020 através da editora Solar dos Livros, também não tentei capturar o tempo-espaço canadense da pequenina cidade de Orillia (que inspirou a criação de Mariposa), em Ontario, do início do século XX, mas oferecer a vocês, leitores, minha interpretação daquilo que as aventuras desenhadas por essa narradora, bastante peculiar, significam para mim. Tenho certeza de que, de certo modo, essa viagem no tempo e no espaço acontece no livro, e espero que a cidade de Mariposa lhes toque de alguma maneira, pintando mais um quadro de significados que ficará guardado na memória de vocês, com toda sua cor local e, quiçá, com os detalhes das pinceladas de minha tradução. As notas de rodapé, que permeiam o livro, foram motivadas por minha vontade de contextualizar alguns momentos das histórias, por vezes oferecendo para meus leitores um aprendizado e aprofundamento no que concerne aos elementos do interior canadense que eu, particularmente, gostei muito de ter conhecido. A literatura é hipertextual: ela abre portas para novos textos e sentidos e, ao ser traduzida, essa hipertextualidade é amplificada pelas portas esboçadas agora pelo tradutor e abertas pela leitura do público alvo da tradução. A abertura de portas é uma trajetória natural e inescapável: nós, tradutores, respondemos, com borboletas (ou mariposas?) na barriga, aos anseios de tentar dar sentido para as coisas; porém, nesse processo, para cada resposta oferecida, o dobro de perguntas pulula espontaneamente.

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