Blog

Editora Solar dos Livros
Dando voz aos nossos autores

Eleanor Rigby – Capítulo 3

Autora: Amanda Kraft

No capítulo anterior, Eleanor recorda o desapego e apatia da mãe em relação a ela. A revolta de seu pai por ela ter nascido mulher enquanto um menino era desejado. Esse ódio paterno reflete em sua única chance, apagada pela brutalidade de seu algoz, quando vê o amor refletido nos olhos de Wiliam.

Foi assim que conheci Padre Mckenzie. Ele me acolheu em sua Igreja. Ouviu meu coração aflito por anos perdidos no trato de um pai que me odiava, mas que nunca me libertava.  Arranjou-me trabalho como copeira numa casa de família. Pude sobreviver ao inverno gelado. Mas nada que ele me dizia apagava os gritos de meu pai:

— Você nunca será ninguém Eleanor. Nunca!

E não sou ninguém. Ninguém me conhece, ninguém me vê. Padre Mckenzie fez o que pôde. Cerze suas meias à noite, na solidão de seu quarto e talvez pense em como a vida pôde ser tão cruel comigo. Creio que faço parte de seus sermões que ninguém presta atenção. Não sei realmente com que ele se importa. Todos se voltam para dentro de sua própria essência. Também não diz nada quando me vê escondida nas pilastras, assistindo a casamentos dos quais nunca fui convidada. Nem quando me vê colhendo arroz do chão quando todos já se foram. Por que os colho? Não se pode desperdiçar nada nessa vida. Foi o que aprendi. Levo-os para casa. Lavo, cozinho e espero que um dia possa viver outra vida que não essa. Já não busco um amor. Tenho medo, mas algo grita dentro de mim. Não quero morrer assim. Não quero que outros tenham a solidão que tenho. Todas as pessoas são assim? De onde elas veem? Não. Nem todas são assim.

Preciso fazer alguma coisa para ser lembrada. Talvez colhendo arroz na Igreja alguém repare em mim? Ainda existe uma força que insiste em me deixar, mas preciso deixá-la escondida. Não é hora. Não há caminho. Da janela da Igreja, coloco a máscara da Esperança e vejo um menino. Seus olhos cintilam tristeza, mas há algo mais. Há uma força crescente emanando dele. É como um imã que me une a ele. Inexplicável afeto. Passei a esperá-lo, ainda escondida, vendo-o perambular pelas lápides no velho cemitério atrás da Igreja. Meu coração se alegra, mesmo que ele jamais sonhe com minha presença. Hoje trouxe alguém. Outro menino que pertenceu ao coral das missas dominicais. Os dois passeiam sem me notar. Seu semblante carrega uma velha alma, enquanto o novato aponta para a mortalha de seu tio George Toogood. Um nome engraçado. Ele se divertia.

Quero tocar no menino, mas não posso. Sinto seu coração carregado de emoção. O vento gelado lhe fustiga o rosto e ele se vira. Quase me vê. Escondo-me depressa. Os dois caminham juntos e eu continuo ali. Minha alma pulsando na tarde escorregadia. Passo os dias esperando-o. Ele já não vem mais. Segue seu caminho e eu o sigo esperando, esperando, esperando.

Gostou? Que tal Compartilhar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Eleanor Rigby – Final

Autora: Amanda Kraft No capítulo anterior, Eleonor influencia o menino de olhos caídos a contar sua estória através de uma

Eleanor Rigby – Capítulo 4

Autora: Amanda Kraft No capítulo anterior, Eleanor recebe ajuda do Padre Mckenzie, que a acolhe em sua igreja, arranjando-lhe trabalho.

Eleanor Rigby – Final

Autora: Amanda Kraft No capítulo anterior, Eleonor influencia o menino de olhos caídos a contar sua estória através de uma

Eleanor Rigby – Capítulo 4

Autora: Amanda Kraft No capítulo anterior, Eleanor recebe ajuda do Padre Mckenzie, que a acolhe em sua igreja, arranjando-lhe trabalho.

Eleanor Rigby – Capítulo 2

Autora: Amanda Kraft No capitulo anterior, Eleonor observa as pessoas ao seu redor, sentindo-se invisível. Ninguém presta atenção nela, enquanto

Carrinho

fechar

Minha Conta

fechar

Sidebar
Usamos cookies para melhorar a sua experiência no nosso site. Ao navegar neste site, você concorda com o uso de cookies.