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Eleanor Rigby – Capítulo 2

Autora: Amanda Kraft

No capitulo anterior, Eleonor observa as pessoas ao seu redor, sentindo-se invisível. Ninguém presta atenção nela, enquanto o fantasma do passado a corrói.

Nasci de uma mulher pequena e frágil que se foi logo após eu ter completado seis anos. Meu pai achava que ela também era uma inútil por passar a maior parte de seu tempo entrevada na cama. Acredito que sua saúde deteriorou por vontade própria. Foi infeliz, coitada. Viu-se obrigada a se unir a meu pai num arranjo familiar. Não a conheci de verdade. Seus olhos castanhos também não me enxergavam. Não creio que me odiasse, entretanto, agora entendo, eu era o fruto de algo que a alarmava.

Ele queria um menino para transformá-lo à sua imagem e semelhança. Talvez o Universo, ou o que quer que nos rejam, tenha se apiedado do menino que viria a nascer, colocando-me em seu lugar. Fui uma brincadeira de mau gosto para ele que sempre deixou claro sua decepção. Acho que fui a vingança de minha mãe. Ela se foi e eu fiquei aguentando os maus tratos até o dia feliz de sua morte.

Às vezes sinto sua sombra me espreitando, sobrepujando. Posso senti-la zombando cada vez que sinto a ponta da felicidade se derramar em mim. É claro que ele jamais permitirá que eu seja feliz. Houve um momento em minha vida que pensei que me livraria de seu golpe mordaz para sempre. William sorria para mim quando me via entrando na Padaria de seu pai, atrás do balcão, quando lhe pedia um biscoito amanteigado. Seus dedos tocavam os meus ao pegar um penny de minha mão. Nossos olhos se encontravam e o mundo parecia girar feito carrossel na noite estrelada, tão rara quanto aquele momento. Aquele velho maldito parecia pressentir a felicidade ao meu redor.

Eleanor! Sua pequena atrevida! Você nunca deixará essa casa. Nunca se casará. Nunca será ninguém, Eleanor. Nunca!

Ele nos viu juntos num fim de tarde quando voltava para casa. Esqueci-me dele por completo, mirando os olhos claros de William. Quando dei por mim, corri destrambelhada pela rua até nossa casa. Abri a porta devagar, sentindo o coração doer no peito. A casa estava escura. Um alívio percorreu meu corpo. Graças aos céus ele se atrasara. Mal o pensamento brotou em minha mente e senti o punho de aço em meu rosto. O sangue esguichou pelo nariz e um dente se foi ao chão. Arrastei-me, mas ele foi mais rápido. Seus golpes acertavam a costela com precisão. Acordei com a luz da manhã entrando pela janela. Cada centímetro do corpo doía.

— Prepare meu chá, sua pequena atrevida.

As lágrimas se misturaram a fusão aromática. Sorveu a bebida e saiu deixando-me presa no mausoléu. Encarcerou-me como se fosse sua prisioneira. Mas eu continuei cuidando dele até que o céu se apiedou de mim e o levou. Mas não foi só. Levou minha beleza e juventude com ele. Nas primeiras semanas, senti-me perdida. Foram tantos os anos de cárcere que não sabia o que fazer de minha vida e nem como mantê-la. Aos poucos consegui sair de casa novamente. Muitos não me reconheceram. Nunca mais soube de William. Acho que o velho me matou para os que o conheciam. Eu já não era ninguém. Apenas uma mulher de meia idade, um tanto quanto deformada pela fome, pela dor e pelos golpes certeiros.

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