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Editora Solar dos Livros
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A tradução é a UTI para a sobrevivência do original?

Autor: Davi Silva Gonçalves

Um lugar chamado Mariposa, que parece ser apenas uma compilação de pequenas histórias sobre uma pequena cidade, é, na verdade, uma história sobre tudo aquilo que abarca o processo de desenvolvimento, do rural para o urbano; este romance, ou conjunto de contos, como preferir, é, também, uma história sobre o senso de comunidade. Mariposa é uma cidadezinha, mas muitas vezes soa também como um sobrenome, uma família da qual fazem parte todos os personagens, os quais estão ligados por um laço que não é de sangue, mas que o extrapola. A narradora, que nos conta em tom de fofoca tudo que vê na cidade, compartilha conosco também de seu afeto por ela, bem como por todos os personagens que aos poucos tomam forma nesse livro. Alguns aparecem apenas uma ou outra vez; outros o tempo todo e mais outros tantos quando a gente acha que até já se esqueceu deles. Condensada nessa história, que finalmente chega ao Brasil com a editora Solar dos Livros, existe uma História de “h” maiúsculo, de um país que se vê em um limbo identitário – na incessante busca por se encontrar, tendo de um lado um tal grande irmão que engole tudo o que vê pela frente e do outro uma lembrança, a cada dia mais nebulosa, de sua herança colonial, europeia. Os diversos aborígenes e imigrantes, somados ao isolamento climático e geográfico, fazem com que essa ambivalência se torne ainda mais complexa na “multinação” canadense. Com essa versão agora em língua portuguesa, a confusão causada por toda essa heterogeneidade que fundamenta a construção de Mariposa ganha uma nova camada e torna-se ainda mais confusa. Assim, a tradução aqui se apresenta como mais uma pitada de desafio para esse enigma chamado literatura.

Mariposa pode, sim, ser lida como uma representação do passado, mas apenas como é também uma representação do nosso presente e do nosso futuro. Ela é um grito de desespero ainda a ecoar, e que nos pede para olharmos ao redor, nos permitindo ouvir o silêncio do espaço que ocupamos e que nos espera parar de fazer tanto barulho para ele, também, algo nos comunicar. Se nosso presente evoca o passado é porque ele ainda existe, enquanto memória e enquanto parte fundadora de tudo aquilo que entendemos como o nosso “agora”. A tradução incorpora, física e objetivamente, essa interferência mútua; ao ultrapassar limites e fronteiras de tempo e de espaço, ela nos lembra de que a nossa história particular não se trata de um ponto fixo e imóvel, mas de uma cinesia contínua e espontânea nesse cosmos de início e fim desconhecidos. Dentro dos estudos da tradução, para muitos, a tradução se apresenta como uma forma de sobrevivência do original. Devo discordar. Para mim, esse tipo de representação nos faz pensar em tradução como uma espécie de UTI: um lugar onde o texto original ainda consegue respirar, mas já sem a energia e vitalidade que ele apresenta em seu formato anterior. Que obsessão nostálgica! A tradução é, também, original, e ela deve existir em uma relação de parceria e co-dependência com o texto de partida, não como algo menor ou subserviente em comparação a ele. Nesse sentido, termos como “sobrevivência”, “manutenção” ou “preservação” do sentido original devem, reitero, ser substituídos pela simples ideia de continuidade.

Concluo, portanto, alertando que as personagens de Leacock e as minhas não são exatamente as mesmas. Talvez, só talvez, eu tenha reforçado algumas características de algumas delas e diminuído outras, mexido em alguns de seus encontros, transformado alguns de seus diálogos de acordo com minha percepção e interpretação. Minha narradora tampouco é a mesma. Talvez ela seja mais irônica, cáustica e até mesmo mais grosseira do que a narradora original dos esquetes. Nisso reside minha tentativa de transmitir para vocês a ideia que fiz desses sujeitos, dessas aventuras e dessa cidade, que segue sendo canadense, mas agora com o toque sutil de uma descrição feita através do bom e velho português brasileiro. “Mas por quê, tradutor? Eu só queria ler o texto original em português”. Não se engane, está aí a pegadinha, e nisso fecho minha reflexão voltando para algo que disse ao início desse texto, parafraseando Lampedusa a meu gosto: para que um texto permaneça a ser o que é, em um outro idioma, é preciso que ele seja modificado por completo. Para rirmos dos chistes e dos absurdos que se multiplicam nos esquetes, bem como para percebermos a intensidade da cor local que se expande em sua atmosfera, é preciso que o efeito seja privilegiado. Mais importante que a piada é o riso. Portanto, leitor, se você se despede deste texto com uma leve curiosidade por conhecer essa tal Mariposa, que o vento trouxe para mais perto de você, posso dizer que, enfim, o dever de Leacock e o meu estão cumpridos.

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